Pastoreio Racional Voisin de ovinos: Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada - UFSC

  • Edaciano Leandro Losch Programa de Pós graduação em Agroecossistemas. Universidade Federal de Santa Catarina
  • Gabriel Garcia Fernandes de Paiva Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC
  • Thiago Pinheiro Machado Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC
  • Dario Fernando Milanez de Mello Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC
  • Cibele Longo Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC
  • Patrizia Ana Bricarello Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC
Palavras-chave: relato de experiência

Resumo

Local da experiência: O Pastoreio Racional Voisin (PRV) de ovinos está situado no Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC, pertencente ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil (Latitude: -27.5969, Longitude: -48.5495 27° 35′ 49″ Sul, 48° 32′ 58″ Oeste).

 

Qual foi a experiência: Implantação e condução de uma unidade de PRV de ovinos com enfoque para pesquisa e extensão na capacitação de agricultores, técnicos, estudantes e profissionais das áreas de ciências agrárias.

 

Período/Época de realização: A experiência teve inicio em 2014 até o presente momento.

 

Objetivo: Desenvolver uma unidade de PRV de ovinos nas dependências do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda Ressacada UFSC.

 

Como foi o desenvolvimento:

A criação do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia UFSC surge entre uma parceria da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (extinto MDA), Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através da criação de uma unidade modelo para pesquisa, ensino e extensão. Como publico alvo foram selecionados agricultores que, em sua maioria, eram produtores de tabaco (Nicotiana tabacum), produção esta, sustentada pelo uso intensivo de agrotóxicos e adubos sintéticos, os quais desejavam diversificar sua produção e já contavam com a criação de ovinos em suas propriedades. Através deste cenário seria necessário elaborar uma unidade demonstrativa, com enfoques agroecológicos, viabilizando a diversificação das atividades agrícolas bem como o aperfeiçoamento da criação de ovinos. Diante disso, surge a proposta de implementar uma área de criação agroecológica de ovinos baseada no sistema de Pastoreio Racional Voisin.

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O primeiro passo para a implementação do projeto foi o estudo e demarcação da área, envolvendo a contribuição de vários profissionais e professores da instituição. A área conta com três hectares de pastagem, divididos em 47 piquetes. Cada piquete possui, em media, 600m2, com um bebedouro móvel para cada quatro piquetes e corredores periféricos e centrais de 4m de largura. A pastagem da área é polifítica, apresentando espécies como Paspalum sp., Estilosantes sp., Pennisetum purpureum (capim elefante) e algumas espécies nativas, porém, com predominância de Brachiaria decumbens.

Inicialmente foi realizado o plantio de várias espécies arbóreas nos piquetes entre nativas, frutíferas e forrageiras e, a instalação de sombrite em determinados pontos com a finalidade de ofertar sombra aos animais. O rebanho permanece um dia e uma noite em cada piquete, retornando quando a pastagem estiver no ponto ótimo de entrada, o que possibilita o rebrote vigoroso e o desenvolvimento radicular da pastagem.

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Figura 1. (A): Área de pastagem do sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV) no Núcleo de Agroecologia da Fazenda da Ressacada UFSC; (B): Animais em pastejo de Brachiaria decumbens.

 

            Nos meses mais quentes do ano, primavera-verão, há uma oferta de pasto superior à capacidade de pastejo dos animais, acarretando na redução da qualidade da pastagem e comprometendo o ponto ótimo de entrada. Neste momento é realizado o repasse com bovinos ou roçadas nos piquetes após a saída dos animais. Na época com menor oferta de pastagem, que compreende as estações outono-inverno, é realizada a sobressemeadura com espécies forrageiras adaptadas ao clima frio, como aveia (Avena sativa), azevém (Lolium multiflorum), trevo (Trifolium pratense e Trifolium repens) e ervilhaca (Vicia sativa). A sobressemeadura é realizada durante a permanência dos animais no piquete, os quais auxiliam na tarefa, promovendo o contato das sementes com o solo através do pisoteio. Após a saída dos animais é realizada a roçada dos piquetes, favorecendo a germinação das sementes e promovendo menores competições por luz e nutrientes com as espécies dominantes. Para o bom desenvolvimento das pastagens e para a adubação do solo são realizadas aplicações de preparados biodinâmicos e medicamentos homeopatia nos piquetes.

 

Dificuldades:

Um dos grandes obstáculos apresentados neste trabalho refere-se ao plantio de espécies arbóreas nos piquetes para promoção de sombra. As ovelhas são animais ruminantes que possuem grande afeição por forragear culturas arbóreas. Inúmeras árvores plantadas nos piquetes foram ramoneadas, retardando seu crescimento e, muitas vezes, acarretando na morte da planta. As ovelhas do Núcleo (raças Texel, Crioula Lanada, Romney Marsh e seus cruzamentos) possuem uma espessa camada de lã envolvendo sua pele o que favorece a fuga dos piquetes, mesmo havendo cercas eletrificadas, alimentando-se de árvores que estavam protegidas. Estas fugas, por vezes, acabam comprometendo também o desenvolvimento do rebrote da pastagem dos piquetes, pois os animais invadem piquetes em inicio de brotação. A solução encontrada foi realizar o descarte dos ovinos líderes em fugas e o monitoramento constante dos animais para que permanecessem no piquete.

Outra problemática do sistema refere-se ao componente vegetal. A braquiária, forragem predominante nos piquetes, implantada anteriormente ao projeto, apresenta baixo teor proteico e alto teor de fibras, comprometendo a ingestão nutricional necessária aos animais. Dessa forma, a suplementação com concentrado comercial ainda torna-se necessária. Outra desvantagem da presença desta espécie forrageira está no fato de que, quando mal manejada, pode acarretar fotossenbilização aos animais. A fotossenbilização é atribuída à toxina esporodesmina produzida por esporos do fungo Pithomyces chartarum  e pela presença de saponinas esteroidaislitogênicas na própria gramínea, apresentando-se quando a pastagem passa do ponto ótimo de pastoreio. O repasse com bovinos e roçadas nos piquetes tem auxiliado na redução dos casos de intoxicação por micotoxinas.

Quando ovinos e bovinos compartilham a mesma pastagem, infecções cruzadas podem ocorrer envolvendo algumas espécies de parasitas (AMARANTE et al., 1997). Porém com o decorrer do tempo, os animais tendem a eliminar as infecções heterológas. O pastoreio alternado entre espécies herbívoras pode promover a diminuição da contaminação por larvas infectantes de parasitas gastrintestinais. No Núcleo de Agroecologia são utilizadas medicações anti-helmínticas de baixo impacto ambiental, na forma de controle seletivo, sempre após o resultado do exame de OPG (exame parasitológico de fezes) e cultura de larvas. São medicados animais que apresentam contagens de ovos acima de 1000. Os tratamentos são sempre monitorados a fim de manter a eficácia das drogas acima de 95%. Animais susceptíveis são suplementados com concentrado e feno de alfafa para evitar medicações anti-helmínticas. O manejo da pastagem, sobressemeando os piquetes com leguminosas e gramíneas de alto valor nutricional, possibilita melhorar a resistência dos animais aos parasitas.

Uma das grandes demandas enfrentadas neste sistema é a condução eficiente de um PRV para os carneiros reprodutores. Esta categoria passa o ano todo sob pastoreio, sendo exigidos apenas na época reprodutiva. A divisão de piquetes apenas com cercas eletrificadas tornou-se ineficiente, pois há frequentes fugas, o que dificultava o desenvolvimento da pastagem. Recentemente foi realizada uma reforma na área destinada aos reprodutores, adotando-se cercas de tela para efetivar a divisão dos piquetes evitando-se novas fugas.

 

Resultados da experiência: Para compartilhar os aprendizados, resultados e experiências e contribuir para uma mudança de paradigmas através da prática da Agroecologia são realizadas pesquisas acadêmicas e ofertadas capacitações, dias de campo e visitas técnicas para agricultores familiares, assentados da reforma agrária e para o público em geral sobre a temática do Pastoreio Racional Voisin de ovinos. A proposta do trabalho é que o Núcleo seja um espaço demonstrativo, de troca de experiências/formação e que sirva de modelo para que posteriormente os agricultores possam “replicar” em suas unidades produtivas, cada qual adaptando à sua realidade e necessidade. Até o momento foram realizadas cerca de 30 visitas, qualificações e aulas práticas para estudantes da graduação e foram capacitados pelo menos 60 agricultores familiares. As pesquisas nessa área continuam a ser realizadas e estão sendo ampliadas conforme demanda do grupo e o vínculo com novos projetos.

 

Pessoas envolvidas: Estudantes de graduação dos cursos de Agronomia, Zootecnia e Veterinária, Pós-graduandos, Professores e técnicos. Laboratórios: Parasitologia Animal, LECERA, LETA, Bioquímica e Morfofisiologia Animal, Endocrinologia e Reprodução Animal, Irrigação e Drenagem, ABDSUL e Instituto Compassos.

Os autores agradecem à agência brasileira Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financimento deste estudo (403557/2013-5). O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

 

Referência citada: AMARANTE, A.F.T.; BAGNOLA Jr, J.; AMARANTE, M.R.V.; BARBOSA, M.A. Host specificity of sheep and cattle nematodes in São Paulo state, Brazil. Vet. Parasitol, v. 73, p. 89– 104, 1997.

Publicado
2019-02-07