Uso de árvores em áreas de PRV no Assentamento Liberdade (Minas Gerais)

  • Eloiza Soares Nascimento Bacharel em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestra Profissional em Agroecossistemas pelo Programa de Pós- Graduação em Agroecossistemas (MPA/CCA/UFSC)
  • Marília Carla de Mello Gaia Orientadora Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, Professora do curso Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Palavras-chave: Agroecologia, reforma agrária, silvipastoril

Resumo

O Vale do Rio Doce tem a produção agropecuária como uma das atividades mais consolidadas da região, tendo por base em seu desenvolvimento a degradação ambiental intensa, a monocultura e a criação extensiva de gado. Nesse contexto, o Assentamento Liberdade desenvolve a produção de gado de leite sob os princípios do PRV. O projeto Implantação de Sistemas de Pastagem Voisin e o projeto Recuperando Áreas Degradadas nos Assentamentos de Reforma Agrária de Minas Gerais (RADAR) surgiram da necessidade de conversão da matriz tecnológica de produção para a Agroecologia. O presente estudo objetiva promover uma reflexão sobre as possibilidades da implantação de árvores nos PRVs das famílias. O componente arbóreo tem como parte fundamental do processo obter melhores rendimentos no âmbito econômico, ambiental e social. Neste estudo qualitativo foi realizado o levantamento bibliográfico e posteriormente o trabalho de campo através de entrevista semiestruturada, caminhada transversal e atividade formativa. As entrevistas foram respondidas por cinco famílias que utilizam o PRV para manejo da pastagem e pela coordenadora do Viveiro Florestal. A caminhada transversal foi realizada nos lotes das famílias pelas unidades de PRV, Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (RL) do Assentamento. Todas as famílias acharam muito importante a presença de espécies arbóreas em áreas de pastagem. Através da caminhada, pôde-se notar uma pequena quantidade de árvores nas áreas de pastagens, bem como um processo de regeneração natural nas áreas de preservação e reserva. Durante a atividade formativa, as famílias demonstraram amplo conhecimento quanto ao potencial e múltiplos usos de árvores para a manutenção das vidas compreendidas no agroecossistema, através de experiências obtidas pelo uso forrageiro, medicinal e madeireiro das espécies. Também reconheceram a importância da presença de árvores nas áreas de pastagens e expressaram interesse em plantá-las. No entanto, apresentaram várias ressalvas para efetivação do plantio, dentre elas, a dificuldade em cuidar das mudas no campo, roçar em volta, fazer o controle de formigas, falta de mão-de-obra, carência de água, dificuldade de cercar ou isolar as mudas do pisoteio do gado, etc. As dificuldades apresentadas pelas famílias em implantar o componente arbóreo de forma significativa nas unidades de PRV, mesmo reconhecendo sua importância, evidencia um dos gargalos na implantação do sistema Agroecológico obedecendo a todos os seus princípios. Além de comprometer os efeitos da produção, também demonstra o quão influente ainda é o sistema extensivo para os agricultores daquele local. A transformação da agricultura convencional rumo à Agroecologia está intimamente relacionada aos processos de transformação da sociedade como um todo, passando necessariamente pelo fortalecimento da agricultura de base familiar e por profundas modificações na estrutura fundiária do País.

Publicado
2019-02-07